A EDUCAÇÃO COMO PRÁTICA DE JESUS

22 de Fevereiro de 2019
Postado por: Cristine Maraga

Ir. Rosilei Mielke, IFMMA.

Grandes temas da realidade histórica brasileira apresentam-se como focos de debates, tais como a democracia, as geopolíticas, sistemas econômicos, crescimento das intolerâncias, os fenômenos das migrações, o feminismo, as discriminações sexuais e étnicas, e os direitos humanos fundamentais. A educação é um desses espaços que jamais perderão sua função de propiciar as relações, o debate, diálogos, confrontos, informação e formação. A educação é, portanto, um ato político por essência, sobretudo para uma nação democrática, podendo ser um instrumento de luta pela igualdade de oportunidades, em uma sociedade que tem por definição a pluralidade, a diversidade e o convívio. Todo ato de educar é ideológico.

A Constituição Brasileira de 1988 traz a educação como um direito universal de todos, assim como os Direitos Humanos a apresenta como fundamental e universal. No entanto, vivenciamos uma realidade em que a educação, no seu sentido amplo, como meio em que os hábitos, costumes e valores de uma comunidade são transferidos a geração seguinte, além de aperfeiçoar as capacidades intelectuais e morais de alguém, tem sido negligenciada a muitas populações e gerações.

A educação que se move por todos os espaços e contextos é também um instrumento de empoderamento. Em outro sentido, tem sido usada como ferramenta de exclusão e opressão ao tornar as escolas de “qualidade” privilégio de alguns, em detrimento de outras formas de educação.

 

A prática educadora de Jesus

Toda forma de educação precisa considerar a forma de como ensinar e aprender. Para tal, tem-se em Jesus Cristo uma referência de como articular o ensino e aprendizagem e a vida das pessoas e comunidades.

Jesus Cristo foi mais do que um educador, foi também um aprendiz, na medida em que observava, via, ouvia e participava da vida. Observava nos pássaros do céu, nos lírios do campo (Mt 6.26-30), na chuva que cai sobre bons e maus (Mt 5.45), os sinais da Providência Divina, da misericórdia e da acolhida de Deus. Essa atitude se transforma em conteúdo no convívio com o povo, pois o “formando sempre é fator de formação para o seu próprio formador. O formando se forma formando seus discípulos.” (Carlos Mesters).

Em sua prática educadora, de mestre, Jesus privilegia os mais simples, os que tem menos acesso às escolas da época, porém, ensina a todos. Para o povo pobre de seu tempo os educadores a que tinham acesso eram Deus, os profetas populares e a família patriarcal.

A ação de educar de Jesus precisa ser considerada nessa relação ensino e aprendizagem, educador e aprendiz. Ela desenvolve-se na arte de observar, tentar ler e interpretar a dinâmica da vida e gerar seu protagonismo. Os Evangelhos contam sobre a pedagogia de Jesus que empodera e liberta. Isso podemos observar em diversos encontros com crianças e jovens: com a filha de Jairo (Mc 5,41-42), a filha da mulher cananeia (Mc 7,29-30), o menino epilético (Mc 9,25-26), o filho do centurião (Lc 7,9-10), o filho da viúva de Naim (Lc 7,14-15), o filho do funcionário público (Jo 4,50). Sua pedagogia considera o outro no seu contexto, sua vida e sua história, considerando-o provido de saber.

Um dos exemplos da forma de educar de Jesus são as parábolas. Seus ouvintes são conduzidos a fazer parte da história. Jesus não faz saber transmitindo conteúdo, mas faz descobrir, conduzindo os ouvintes a uma atitude de contemplação e de observação. Ele faz refletir sobre a própria experiência de vida e da comunidade e faz perceber os caminhos para a transformação pela interação, pelo diálogo e pelo relacionamento.  Todos aprendem e ensinam de forma conjunta.

Ao olhar para a prática de Jesus pode-se dizer que qualquer educação necessita pautar-se no amor, na fraternidade e pluralidade, no serviço, na justiça e igualdade de direitos, no cuidado e no diálogo, possibilitando que as pessoas expressem com liberdade o que veem, sentem, compreendem, desejam, sonham, acreditam e sabem.

Uma educação inspirada na prática de Jesus educador, revela-se nos evangelhos a partir de alguns pontos centrais:

Uma pedagogia que parte da realidade:

Jesus leva a comunidade à reflexão a partir de fatos, acontecimentos, objetos, experiências e conceitos que fazem parte do seu dia-a-dia. Leva em conta a realidade das pessoas, assim, o conteúdo e a linguagem são entendidos pela comunidade. Jesus conhecia bem a matéria que ensinava, pois, a experienciava (Lc 24,27; Mt 4,4.7.10). Jesus fazia pensar a partir de conclusões contraditórias que confrontam a realidade (Mt 20,16). Aproximava-se e conhecia profundamente seus aprendizes (Jo 10,14; Mt 9,36; Mt13; Lc 15,8-10; Jo 21). Jesus valorizava e reconhecia o que havia de bom em seus aprendizes (Mt 12,35; João 1,4-7; Mc 8), convidando-os aprendizes

 

Uma pedagogia participativa:

A partir da perspectiva de valorização de cada aprendiz e das relações vivenciadas pautadas no exemplo, Jesus constrói uma prática educacional dialógica. Nada de refletir a partir de abstrações nem passar doutrinas prontas. Ao utilizar as parábolas como metodologia de ensino, provoca em cada aprendiz uma tomada de posição.

Jesus não impõe pensamentos ou ideologias, mas apresenta sempre a ideologia do amor, do Reino de Deus:  a partilha dos bens, a organização e a vida em abundância para todos (Mc 6,34-44; Jo 13,29; Jo 10,10); a fraternidade, igualdade de todos (Mt 23,8-10); poder como serviço (Mc 9,35; Mt 20,24-28; Jo 13,14; Mt 23,11); convivência de amigos (Jo 15,15); novo relacionamento de gênero (Mt 19,1-9).

Jesus ensinava de modo simples, claro e com autoridade e não autoritarismo ((Mc 1,22; Lc 5,17-26), respeitando a liberdade de cada pessoa de aderir ou não aos ensinamentos. Jesus variava o método de ensino conforme o tipo de aprendiz, o conteúdo e a ocasião. Ensinava muito mais através de seu exemplo (João 13,14.15; Jo 15,12). Jesus dá atenção ao aprendizes sem fazer distinção (Mt 22,16); ensina em qualquer lugar, acolhe todos e permite que mulheres o sigam como discípulas e aprendizes da arte do educar (Lc 8,1-3; Mc 15,41); confronta os discípulos com os problemas do povo (Mc 6,37); apresenta crianças como professoras de adultos (Mt 18,3);

Uma pedagogia libertadora:

Nesta perspectiva libertadora a prática de Jesus constrói, nos aprendizes, um olhar diferente para a realidade, para os seus problemas e desafios. Constrói um sentimento de empoderamento para agir e reagir, pois, a educação vai acontecendo na ação e na interação. Jesus sendo livre, ensina liberdade aos que o cercam (Jo 8,32-36), confiando na força da semente e na ação da terra, do sol e da chuva. Os que o cercam, por sua vez, criam coragem para transgredir tradições que oprimem (Mt 12,1-8; Mc 5,25-34). Ele provoca a criatividade e a participação.

Para Jesus educar é abrir os olhos (Mc 10,46-52). Trata-se de facilita ao cego encontrar progressivamente a verdadeira visão, libertando-se da opressão, dos preconceitos, da discriminação, das injustiças, ajudando-o a penetrar mais profundamente na sua realidade e na dinâmica da sociedade. Provoca ao aprendiz perceber e marcar seu lugar na vida (Mc 4,1-20), estabelecendo metas e sonhos, enxergando novos horizontes. É por esse difícil caminho (Mt 7,13-14) que o aprendiz é libertado mediante uma nova visão da vida. De uma coragem de transformá-la, através de relações recriadas que o reintegra à comunidade, de novos paradigmas e padrões de escolhas, de consciência política e de relações econômicas e de poder, e de enxergar a cegueira do sistema que o cegou.

Para Jesus educar é também abrir os ouvidos para escutar e entender (Mc 4,3.9). Despertar o ouvido significa ajudar a superar a ignorância e a repetição decorada das verdades ditas por outros, por falsos educadores que se tornam instrumentos de opressão e não de libertação (Mt 24,11; Jo 10, 12.13). Trata-se de devolver o ouvido para escutar e responder criticamente de forma autônoma (Mt 13,9; Mc 7,16). Porém, Jesus respeita a capacidade dos ouvintes (Mc 4,33).

Educar como prática de despertar o ver e o ouvi significa instrumentalizar o aprendiz para aprender a ler a vida e o mundo, mas com atitude e poder de autor.

 

Referências 

GAMELEIRA, Sebastião A. Da cegueira à visão. CEBI, São Leopoldo/RS, 2017.

HANK, Ezequiel. Do direto à educação. In Direito à vida da juventude. CEBI, São Leopoldo/RS, 2016.

MESTERS, Carlos e OROFINO, Francisco. A prática pedagógica de Jesus de Nazaré. In: Educar para justiça, a solidariedade e a paz. Paulus, SP, 2004.

_________. As parábolas de Jesus – Irradiar a Boa-Nova do Reino CEBI, São Leopoldo/RS, 2014.

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