Os desafios da saúde e o papel dos cidadãos

07 de Abril de 2019
Postado por: Cristine Maraga

Por Ir. Neusa L. Luiz - Irmã Franciscana e Diretora do Hospital Regional São Paulo

No dia 07 de abril, comemoramos o Dia Mundial da Saúde. Ao pensarmos no termo saúde, logo vem à mente a ausência de doença. A Organização Mundial da Saúde (OMS), traz a seguinte definição: “estado de completo bem-estar físico, mental e social e não consistindo somente da ausência de uma doença ou enfermidade”. Olhando tal afirmativa, a impressão é que não estamos diante de um conceito e sim de um desafio ou de uma meta a ser alcançada. 

Este dia foi criado com o objetivo de refletir sobre os maiores problemas que atingem a população mundial, a fim de buscar soluções para tal situação. A cada ano é definido uma temática, porém para este ano de 2019 dez prioridades foram elencadas. A lista inclui desde o combate à poluição ambiental e às mudanças climáticas, até as infecções transmissíveis como o ebola, a dengue, a gripe, o HIV, as doenças crônicas e outros desafios de saúde pública. Destaco apenas algumas prioridades que considero mais pertinente em nossa região. 

A contaminação do ar que respiramos diariamente é considerada pela OMS o maior risco ambiental para a saúde. Poluentes microscópicos podem penetrar nos sistemas respiratórios e circulatórios de uma pessoa, danificando seus pulmões, coração e cérebro, resultando em mortes prematuras. Percebe-se a cada ano o aumento de enfermidades como câncer, acidente vascular cerebral (AVC), doenças cardiovasculares e pulmonares.

Outra prioridade da ONU, é a situação de fragilidade e vulnerabilidade, isto é, populações pobres que vivem uma combinação de fatores como seca, fome, conflitos e migração. Nestes locais os serviços de saúde são mais frágeis deixando este público que hoje representa 22% da população mundial, sem acesso aos cuidados básicos que necessitam. Preocupante também é o consumo exagerado e inadequado de antibióticos, que faz com que as bactérias se tornem cada vez mais resistentes aos medicamentos, o que resulta na ineficácia dos antibióticos no momento em que realmente se faz necessário o seu uso.  

Nos últimos anos, outra grande inquietação da saúde pública são as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti, o principal vetor do vírus da dengue, zika e chikungunya.  Em nossa região, a dengue está sendo o foco no momento. Uma doença infecciosa, que pode ser letal. A enfermidade mata até 20% das pessoas que desenvolvem sua forma grave. A prevenção é simples, porém exige compromisso de todos, pois um simples pedaço de plástico pode se tornar um foco de proliferação ao acumular água. E o que dizer da febre amarela, outra grande preocupação!

Em meio a estas realidades preocupantes temos em nosso país um Sistema Único de Saúde, o SUS. Este sistema está assegurado pelo artigo 196 da Constituição Federal, de 1988. Foi uma conquista, fruto de muitas lutas, que está pautado em três princípios básicos:

1) Universalização: a saúde é um direito de cidadania de todas as pessoas e cabe ao Estado assegurar este direito, sendo que o acesso às ações e serviços deve ser garantido a todas as pessoas, independentemente de sexo, raça, ocupação, ou outras características sociais ou pessoais. Neste contexto quem é atendido pelo SUS não deve pagar nenhum valor adicional ao médico, hospital ou posto de Saúde, se isto acontecer, é configurado como crime e deve ser denunciado.

2) Equidade: o objetivo desse princípio é diminuir desigualdades. Apesar de todas as pessoas possuírem direito aos serviços, as pessoas não são iguais e, por isso, têm necessidades distintas.

3) Integralidade: este princípio considera as pessoas como um todo, atendendo a todas as suas necessidades. Para isso, é importante a integração de ações, incluindo a promoção da saúde, a prevenção de doenças, o tratamento e a reabilitação.

Precisamos entender o SUS e agir de acordo com a organização e princípios do sistema, para que o atendimento seja o melhor possível. As pessoas têm dificuldade de entender o seu funcionamento dentro dos níveis de atendimento que o sistema presta. O primeiro atendimento deve ser realizado na unidade de saúde mais próxima o que chamamos Postos de Saúde, em caso de emergência, diretamente no hospital mais próximo; se for alguma situação eletiva (que pode aguardar) e precisar ser encaminhado para um tratamento de alta complexidade, vai ser encaminhado e no momento oportuno será chamado para a consulta, exames especializados ou cirurgia. Enfim, será garantido a continuidade do tratamento.

Em paralelo ao surgimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), surgiu a Central de Regulação, chamada SISREG. Considero ser uma forma muito justa, pois todos os procedimentos e encaminhamentos precisam passar pela Central de Regulação. Com isso não existe mais “pular a fila”, ou dar “jeitinho político”. Todas as pessoas são tratadas de forma igual conforme sua necessidade de atendimento. Somente passará à frente na fila o caso realmente mais grave, comprovado através de exames e laudo médico que vai justificar a urgência.

A realidade da saúde faz pensar em dois desafios: primeiro, é de refletirmos sobre os principais problemas das doenças e a força que temos através da organização pastoral e dos movimentos sociais e populares que garantem os direitos do povo. Não podemos nos acomodar, pois muitos direitos conquistados correm o risco de serem extinguidos.

O segundo é fazer a nossa parte nos cuidados preventivos. Sabe como? Cuidando o ambiente da nossa casa, terrenos, vias públicas, principalmente em não jogar lixos plásticos e descartáveis para que o mosquito não se prolifere e venha nos contaminar. Buscando uma alimentação mais saudável valorizando os produtos naturais e orgânicos. Investindo na nossa saúde física e mental. Resgatando o valor das ervas medicinais, já que muitas doenças podem ser prevenidas ou curadas no seu início. E, por fim, participando das Conferências de Saúde que estão acontecendo nos municípios e da reflexão do tema da Campanha da Fraternidade, que neste ano trata das Políticas Públicas, o que inclui a área da saúde.

(Fotos: Unsplash) 

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