Irmã Franciscana relata experiência no Haiti

23 de Março de 2019
Postado por: Cristine Maraga

A Irmã Franciscana Missionária de Maria Auxiliadora Rosane Padova, que reside em Chapecó/SC, está no Haiti. Ela acompanha um grupo de religiosas brasileiras que está no país em missão organizada pela Conferência dos Religiosos do Brasil e pela Conferências dos Bispos do Brasil. No texto abaixo ela descreve a experiência que tem vivido nos últimos 15 dias. 

 

Qual o preço da liberdade?!

Por Irmã Rosane Padova

"Estou em Porto Príncipe, no Haiti, há cerca de 15 dias e hoje me atrevo a escrever algo, já que são 4 horas da manhã e o sono se foi. Nos primeiros dias conheci o trabalho de um grupo de religiosas brasileiras, organizada pela Conferência dos Religiosos do Brasil e pela Conferências dos Bispos do Brasil a partir de 2010. As acompanhei em tudo, mergulhei na realidade e missão que elas realizam junto um grupo de famílias do Corai. Um bairro, espécie de acampamento com pequenas casas de madeira construído após o terremoto. Era pra ser temporário, mas continua até hoje sem qualquer infraestrutura, sem água, luz, os banheiros são coletivos e quem conseguiu construiu o seu próximo de casa.

Era uma região desértica e desabitada, ali é difícil produzir alimentos, nem mesmo uma planta de manga sobrevive, sendo essa uma fruteira abundante por toda a cidade. Além da missão, desenvolvida durante a semana com mulheres gestantes abordadando temas como nutrição, saúde, idosos, costura, bordados, artesanatos, padaria, produção de sabão, vassouras e sandálias, tudo subsidiado graças às ajudas econômicas vindas de outros países. 

Também andei pela capital, acompanhando as religiosas em outras atividades. Confesso que nos primeiros dias não via outra coisa senão lixo, em todo lado montanhas de lixo. As pessoas vendem seus produtos nas feiras em meio aos lixões. O cheiro é desagradável, quando chove fica ainda pior. As poucas calçadas que existem, são disputadas pelos feirantes, animais, pedestres, até mesmo automóveis, como estratégia de fugir dos bloquis/engarrafamentos. Se não bastasse, em alguns pontos da cidade onde deveriam ter calçadas, existem como que "pequenos lixões". Muito lixo boiando em piscinas de água. 

Depois de duas semanas andando pelos mesmos pontos comecei a enxergar realmente, foi como se tivessem caído as escamas dos olhos. Sobreviver aqui é uma arte, um esforço sobre-humano, a impressão que se tem é que não há líderes que orientam e organizam os seus. A resistência e as lutas históricas pela liberdade estão estampadas em telas pintadas por artistas haitianos, que as expões para a venda nas ruas da cidade, está nos ônibus e "tap tap" que transportam a população. 


Me pergunto que espécie de liberdade é essa que precisa ainda ser paga? Até quando os opressores derrotados vão agir como se fossem os donos de um povo que  graças a sua força, organização fez o inimigo correr. Por aqui a liberdade é uma criança, que corre riscos todos os dias de ser raptada, sequestradas pelo poder e interesses políticos e econômicos estrangeiro.  

Por outro lado, uma força incrível deste povo anda livre e forte, e a esperança brota das pedras que sustentam os pés da resistência e da transformação. Oxalá cabeças pensantes e inteligentes retornem ao país e as que aqui estão permaneçam para arregaçar as mangas e trabalhar pelos seus, cuidar da “criança liberdade” e apostar na capacidade de transformação e organização do seu próprio povo.

 

Compartilhe
esta notícia
Voltar